Gramática do italiano de A a Z
133 temas em 22 áreas. Cada um tem um nível, uma explicação em português, frases de exemplo com tradução, a armadilha típica de quem fala português e exercícios próprios.
Como percurso, numeradoComo mapa: os tempos numa linha do tempo
Alfabeto e pronúncia
5 temas · A1Letras, sons, acento tónico.
Tempos verbais e condições
28 temas · A1–B2Presente, passato prossimo, imperfetto, futuro, condizionale, frases com se.
Congiuntivo, modais e passiva
39 temas · A1–C2Essere e avere, modais, imperativo, verbos com si, passiva, congiuntivo.
Nomes, artigos e pronomes
33 temas · A1–B1Artigos, género e plural, adjetivos, pronomes (lo, gli, ne, ci), preposições.
Construção da frase
15 temas · A1–B2Perguntas, negação, orações relativas, conjunções, discurso indireto.
Tratamento e estilo
13 temas · A1–C2Tratar por tu ou por Lei, cortesia, acentos, apóstrofo, ordem das palavras.
Alfabeto e pronúncia
Alfabeto e pronúncia
5 temasO português escreve muitas vogais que depois mal se ouvem: o o final que soa a u, o e final que quase desaparece, as nasais que a escrita só sugere. O italiano faz o contrário. O que está escrito pronuncia-se, sempre da mesma maneira, e a última vogal ouve-se tão bem como a primeira: pane tem duas sílabas cheias, e o e final é um e a sério. Não há vogais nasais. O que é preciso aprender cabe em poucas coisas: *o c e o g mudam de som antes de e e i, mas não como em português, uma consoante dupla dura mesmo mais tempo, e o acento gráfico* segue regras diferentes das tuas. Isso, mais o alfabeto e as vogais, é todo este capítulo.
Tempos verbais e condições
O presente
6 temasUm verbo italiano acaba em -are, -ere ou -ire, e daí dependem as suas seis terminações. O sistema é o teu: três conjugações, seis pessoas, e o sujeito que se cala porque a terminação já diz quem fala. O que muda não é a gramática mas a boca. O português europeu fecha e engole as vogais átonas, e as terminações italianas são justamente vogais átonas — só que aqui elas são a gramática, e engoli-las apaga a pessoa. parlo, parli, parla, parlano distinguem-se apenas por essa última vogal, que tem de sair inteira e clara.
O passado
6 temasO italiano conta o passado com o passato prossimo: auxiliar mais particípio, ho mangiato. A construção é a de « tenho comido », e é aí que está a armadilha, porque não é o mesmo tempo. Em português o composto conta uma ação repetida ou continuada até agora; em italiano conta um facto acabado. O que o português diz com « comi », o italiano diz com ho mangiato — e a forma simples que se parece com « comi », mangiai, retirou-se para os livros e para a metade sul do país. A isso juntam-se duas peças que o português não tem: o auxiliar nem sempre é o mesmo verbo, porque o movimento, a mudança de estado e todos os reflexivos vão com essere, e depois de essere o particípio concorda com o sujeito, è andata. O imperfeito é teu por inteiro.
O futuro
9 temasO futuro simples existe nas duas línguas e nas duas recuou da fala. O que ocupou o lugar não é o mesmo: em português é « vou » mais infinitivo, e em italiano é o presente simples com uma marca de tempo — domani parto. A tua perífrase não tem aqui equivalente nenhum, e não vale traduzi-la à letra: andare a mais infinitivo quer dizer levantar-se e ir fazer alguma coisa, e stare per é só o minuto seguinte. Em troca, o futuro italiano ficou com um trabalho que o teu faz pouco: supor sobre o presente. Saranno le otto é « devem ser oito horas », e na língua falada esse é o seu emprego mais frequente. Ao lado dele está o condizionale, que carrega a delicadeza: vorrei em vez de voglio é a diferença entre um pedido e uma ordem.
As condicionais
7 temasOs três pares são quase os teus: « se chover, fico », « se tivesse tempo, iria », « se tivesse sabido, teria vindo ». Duas coisas mudam, e a segunda é a que apanha toda a gente. A primeira: na condição provável o português põe o futuro do conjuntivo — « se chover » — e o italiano põe o presente do indicativo, se piove, ou o futuro, se pioverà. A segunda é a mais cara. Na fala, o português troca o condicional por um imperfeito e diz « se tivesse tempo, ia », mantendo o conjuntivo à frente. Em italiano essa troca não existe pela metade: quem põe venivo no lugar de verrei arrasta a outra metade consigo, e a frase inteira sai da língua cuidada.
Congiuntivo, modais e passiva
Ser e ter
4 temasDois verbos seguram as primeiras semanas: essere e avere. Ambos são completamente irregulares, ambos voltam depois como auxiliares em todos os tempos compostos, e ambos se sabem de cor antes de qualquer regra. A idade e a fome vão com avere, tal como com « ter »: ho vent'anni é « tenho vinte anos », palavra por palavra. Três coisas é que dão trabalho. O sujeito cala-se, e sono quer dizer ao mesmo tempo « sou » e « são ». O « há » invariável passa a duas formas que concordam. E o auxiliar reparte-se por dois verbos, coisa de que o português se livrou há séculos.
Poder, dever, querer
9 temasOs quatro verbos são teus: potere, dovere, volere e sapere, irregulares mas completos, com o infinitivo nu atrás — posso venire é « posso vir ». sapere e conoscere repartem o terreno como « saber » e « conhecer », so nuotare incluído. O que não é teu é uma peça que o português usa sem dar por isso: o infinitivo pessoal. « É preciso saíres cedo » traz a pessoa dentro do infinitivo, e o italiano não tem nada assim — bisogna só aceita um infinitivo sem dono, e quando a pessoa tem de aparecer é preciso abrir uma oração com che e um congiuntivo: bisogna che tu esca presto. Duas coisas mais, mais pequenas: « ter de » passa todo por dovere, e no passado o auxiliar vem do verbo de trás.
Pedir e mandar
4 temasO imperativo italiano é o presente sem sujeito, com uma troca de vogais para decorar: nos verbos em -are a forma de tu acaba em -a — parla! — e nas outras em -i. A repartição por pessoas é quase a tua, forma de cortesia incluída, que aqui como aí sai do conjuntivo: Scusi!, Senta!, Aspetti! O que muda a sério é o ponto em que o pronome se encosta ao verbo. As duas línguas mexem no verbo nesse ponto, e mexem em sentidos contrários: o português tira-lhe uma letra e mete um hífen — « faz » mais « o » dá « fá-lo », « diz » mais « o » dá « di-lo » — e o italiano solda tudo numa palavra só e dobra a consoante do pronome: fallo, dillo, dammi. E na forma de cortesia o pronome nem se junta: fica à frente, solto, mi dica.
Os verbos com si
4 temasOs verbos reflexos são teus e o si impessoal também: « aqui vendem-se jornais » é qui si vendono giornali, com a mesma concordância. O que não é teu está no meio deste capítulo e é a construção mais usada de todas. « Gosto de café » tem a pessoa como sujeito e leva uma preposição; mi piace il caffè não tem nem uma coisa nem outra. O sujeito é o café, a pessoa passa a objeto indireto, e o di que a mão portuguesa quer pôr não existe em lado nenhum da frase. Duas alterações de uma vez, e uma delas — a preposição — é daquelas que se escrevem sem se dar por elas.
A passiva
4 temasA passiva faz-se com essere e um particípio que concorda: la lettera è stata scritta. O agente entra com da, onde o português põe « por ». A construção com si é a tua, concordância incluída — si vendono case é « vendem-se casas ». O que não tem correspondência é o meio do capítulo. O português distingue o processo do estado com « está a ser fechada » contra « está fechada », uma perífrase de três palavras; o italiano não tem essa perífrase e resolve o mesmo com um verbo: viene chiusa contra è chiusa. E há um terceiro verbo, andare, que é uma passiva com um « tem de » já lá dentro.
O congiuntivo
6 temasO conjuntivo é teu e está igualmente vivo, com quase os mesmos gatilhos: voglio che, benché, prima che, senza che. Muda uma regra conhecida — penso che e credo che pedem o congiuntivo já na afirmativa, onde o português diz « acho que é » com indicativo — e muda uma coisa maior, que se nota pouco e custa muito. Quando os dois sujeitos são diferentes, o português continua a poder usar um infinitivo, porque o seu infinitivo se conjuga: « antes de saíres », « sem eles saberem ». O italiano não tem essa saída. Sujeito diferente quer dizer che e congiuntivo, sem alternativa: prima che tu esca.
O que vem a seguir a um verbo
8 temasA máquina é a tua: dois verbos seguidos, o segundo no infinitivo, e pelo meio nada, a ou di — voglio partire, comincio a partire, decido di partire. Os grupos até se reconhecem, porque « começar a », « aprender a » e « deixar de » caem onde seria de esperar. O que falta é outra coisa, e é justamente a peça de que o português mais se serve: o infinitivo pessoal. « Depois de comermos », « é fácil eles perceberem », « sem sabermos » — um infinitivo que se conjuga não existe em italiano, e sempre que a frase portuguesa mete uma pessoa no infinitivo é preciso reconstruí-la, ou em torno do sujeito do verbo principal, ou com uma oração inteira. É esse o trabalho deste capítulo; as listas de preposições são a parte fácil.
Nomes, artigos e pronomes
Os artigos
5 temasO português tem quatro artigos definidos — o, a, os, as — e nenhum deles depende do que vem a seguir: escreve-se « o amigo » e « o estudante » sem hesitar. O italiano tem sete, e o que os escolhe não é só o género mas *o som com que começa a palavra seguinte*: il libro, mas lo studente e l'amico. É uma regra de boca disfarçada de regra de gramática, e é a primeira coisa deste idioma que é preciso praticar em vez de compreender. Em compensação, no resto o português está do lado italiano: também põe artigo antes de países, de línguas e do próprio corpo — e põe-no ainda antes dos nomes das pessoas, onde o italiano já não chega.
O nome
9 temasUm nome italiano acaba quase sempre em vogal, e essa vogal diz duas coisas ao mesmo tempo: o género e o número. -o é masculino, -a feminino, e no plural passam a -i e -e. A primeira metade é tua e não custa nada. A segunda é onde está o trabalho, e é maior do que parece: o português tem o sistema de plurais mais elaborado das línguas desta casa — -ões, -ães, -ãos, -is, -ns, sem contar as exceções — e nada disso serve aqui. Uma troca de vogal substitui o conjunto inteiro.
Os adjetivos
5 temasQuase tudo já é teu. O adjetivo italiano concorda em género e número e tem quatro formas (rosso, rossa, rossi, rosse) ou duas (grande, grandi), tal como « vermelho, vermelha, vermelhos, vermelhas » e « grande, grandes ». Vai atrás do nome por omissão, e uns poucos adjetivos curtos vão à frente e mudam de sentido ao fazê-lo — « um grande homem » e « um homem grande » dizem-se igual nas duas línguas. O que é preciso acrescentar é pouco e está bem localizado: o italiano não tem adjetivos acabados em consoante, o « que » da comparação passa a di, e os superlativos eruditos que o português forma com outra raiz aqui formam-se todos do mesmo modo.
Os pronomes
8 temasAqui há uma coisa grande a desmontar e várias pequenas a reconhecer. A grande é a posição: o português europeu prende o pronome ao verbo com um hífen — « vejo-o », « diz-me » — e o italiano põe-no sempre à frente do verbo conjugado, solto: lo vedo, mi dice. As pequenas são boas notícias: o artigo antes do possessivo é o teu — « o meu livro » é il mio libro —, as duas séries de pronomes existem igualmente, e as tuas contrações « mo », « to », « lho » correspondem uma a uma a me lo, te lo, glielo.
As preposições
6 temasAs preposições não se traduzem: aprendem-se coladas à palavra de que dependem. E aqui, ao contrário do que costuma acontecer, o português chega com mais peças do que precisa. Contrai com « o » e com « a », contrai « em » e « por », contrai até os demonstrativos — « neste », « daquele » — e o italiano fica-se por cinco preposições: a, di, da, in, su. per não contrai nunca, ao contrário do teu « pelo ». O trabalho não está portanto na contração em si, que é um gesto teu, mas no que vai lá dentro: o artigo italiano tem sete formas e escolhe-se pelo som da palavra seguinte, de modo que é preciso acertar em lo stadio antes de poder escrever allo stadio. Ao lado disso há da, a preposição que o português reparte por « de », « há » e « a casa de ».
Construção da frase
Perguntas e negação
5 temasEste capítulo é quase todo teu. A pergunta tem a mesma ordem da afirmação e reconhece-se pela voz; a negação é uma palavra à frente do verbo; e a dupla negação é obrigatória nas duas línguas, com a mesma regra e as mesmas duas metades — « não tenho nada » é non ho niente, peça por peça. O que é preciso largar são três hábitos bem localizados: o « é que » que se põe em quase todas as perguntas, o « não » repetido no fim da frase, e as quatro grafias de « porque », que aqui são uma só.
Ligar frases
5 temasA armação é a tua: che faz de « que » para sujeito e objeto, nunca se pode omitir, e depois de uma preposição aparece cui. Dentro dessa semelhança há duas peças diferentes, e a segunda é a que se escreve mal. A primeira: onde o português muda para « quem » quando se trata de pessoas, o italiano usa cui para pessoas e para coisas. A segunda é o « cujo ». Concorda com o que é possuído nas duas línguas — nisso estão de acordo — mas o italiano põe ainda um artigo pelo meio: « cuja casa » é la cui casa, e cui casa não existe.
O discurso indireto
5 temasA concordância de tempos é a tua: verbo introdutor no presente e nada se mexe, verbo introdutor no passado e tudo recua um passo. Dice che è stanco contra Ha detto che era stanco. Onde as duas línguas se separam é na ordem transmitida, e a diferença é uma preposição. O português diz « disse-me para esperar », com « para »; o italiano diz mi ha detto di aspettare, com di. E como per existe em italiano e quer dizer « para », a troca sai sozinha e produz uma frase que ninguém diz. A segunda diferença está na pergunta transmitida: depois de se no passado, o italiano escrito prefere o congiuntivo, onde o português fica no indicativo.
Tratamento e estilo
Tratar por tu e tratar por si
4 temasA terceira pessoa já é tua: « o senhor deseja », « a Maria já jantou? » conjugam-se como « ele deseja » e « ela jantou », e o Lei italiano faz o mesmo — Lei parla tem o verbo de lui. O que muda é por onde entra a delicadeza. O português europeu resolve-a nomeando a pessoa: o cargo, o título, o nome próprio, e o pronome fica de fora justamente porque « você » soa arriscado com um desconhecido. O italiano faz o contrário: tem um pronome, Lei, que não tem nada de arriscado, e depois não o diz, porque nenhum sujeito se diz. Dirigir-se a alguém pelo nome — Giovanni ha già cenato? — não é delicado aqui, é falar dele para outra pessoa.
Estilo e escrita
9 temasNada disto decide uma frase e tudo decide a impressão. Para quem chega do português há aqui três boas notícias e uma que dá trabalho. As boas: molto faz exatamente o que « muito » faz, com a mesma regra e o mesmo teste; a pontuação é quase toda a tua, vírgula decimal e ponto de milhar incluídos; e o acento que separa e de è é o mesmo que separa « e » de « é », apenas inclinado para o outro lado. A que dá trabalho é o pronome: em português ele muda de lugar conforme o que vem antes — « comi-a », « já a comi », « não a comi » — e em italiano, diante de um verbo conjugado, fica sempre à frente, sem hífen e sem exceções.